quinta-feira, 21 de março de 2013

Projeto de Língua Portuguesa "Adolescer"

Leitura e interpretação do texto abaixo pela turma do 3º Ciclo etapa III.

A MORCEGA - Walcyr Carrasco


   Quando era adolescente, eu andava com a franja do cabelo batendo no nariz. Parecia um cachorro lulu, mas me achava o máximo. Meu pai resistiu a tudo: ao som de Janis Joplin, à minha mania de desenhar girassóis nos cadernos, e só entregou os pontos quando me viu desbotando um jeans novinho com cândida. Em nocaute por pontos, suspirou:
  - Nada mais me espanta.
  Reagi dedicando boa parte da minha vida a defender lances de vanguarda, como o uso de brinquinhos em orelhas masculinas quando isso era tabu. Sempre achei que nada me surpreenderia. Pois fui visitar uma amiga cuja filha adolescente, de 14 anos, tem o rosto de um anjo de catedral, mas se veste de preto, come um morcego. Encontro as duas brigando.
  - Quero fazer uma tatuagem e ela não deixa.
  Sorrio, pacificador. Aconselho:
  - O ruim da tatuagem é que, se você se arrepender
mais tarde, não sai.
  A morcega explica: será inscrita em um lugar do corpo só possível de ser visto se ela mostrar.
Tremo Pergunto onde.
  A resposta alegre:
  - Dentro da boca.
  Repuxa os lábios como um botocudo e mostra sítio designado: a parte frontal das gengivas.
A mãe lacrimeja:
  - Não, não. A bandeira do Brasil...
  Eu e a mãe nos olhamos aparvalhados. Descubro ¬que o símbolo pátrio virou moda. A morcega continua: : quer porque quer ir a uma rua que reúne morcegos, mariposas e outros bichos nos fins de semana. Arbitro:
  - Lá vão punks da pesada!
  Ela zumbe, hostil, porque se considera punk da pesada. Reage:
  - O movimento punk quer liberdade, só isso.
  - Prendi você? -lamenta-se a mãe inutilmente.
  Fico sabendo que os punks de bom-tom até andam, na tal rua, com cartazes dizendo: "Não quero briga" ou "Sou paz". Também elegeram um templo: a danceteria Morcegóvia, no bairro Bela Vista. É lá que se encontram vestidos preferencialmente de escuro, com bijuterias de metal pesado, brinqui¬nhos de crucifixo e uma enorme alegria de viver - só preenchida pelo som de rock pauleira. Digo, para me fazer de moderno:
  - Sabe que fui ao show do Michael Jackson?
  Ela torce o nariz. Odeia. Led Zeppelin, Sepultura, isso sim! Arrisco:
  - Quem sabe você fica rica montando um conjunto chamado Crematório.
  - Vocês (nós, adultos) só pensam em coisas materiais. A gente (eles, os punks) quer é saber do espírito.
  Já ouvi isso em algum lugar. Eu dizia a mesma coisa e ficava furioso quando ouvia meus pais dizerem que, quando eu fosse mais velho, entenderia tudo que estavam passando comigo. Explico que concordo com as teses morcegas. Tenho apenas problemas em relação ao estilo. Olho para ela, de camiseta preta e jeans rasgado, e penso como ficaria bonitinha num vestido de debutante. Lembro de sua festa de aniversário: o bolo era em forma de guitarra, cinza. Em certo momento, a turma se divertiu atirando pedaços de doces uns nos outros, para horror das mães e avós presentes.
  Subitamente desperto, descubro que a onda punk se espraia muito mais do que o eu pensava. Um dia desses vi um garoto pintado de três cores. O filho de uma vizinha usa dois brincos dourados, um rubi no nariz e cabelos tão cacheados que noutro dia o cumprimentei pensando que fosse a mãe dele.
A morcega me encara, pestanas rebaixadas, farta. Nervoso, reflito que devo estar ficando velho.
  Adoraria estar do lado da filha, para me sentir rejuvenescido. Toca a campainha, ela vai até a porta. Um rapaz alto, de cabeça inteiramente raspada, sorri, rebelde. Observo um dragão tatuado em seu couro cabeludo. A mãe range os dentes, enquanto a filha sai nos braços de seu príncipe motoqueiro. Eu e a mãe nos olhamos, tão nocauteados como foi meu pai. Sei que o rapaz trabalha, como a maioria dos punks. Mas onde? Não consigo imaginar o gerente do banco com um alfinete espetado nas bochechas. São rebeldes apenas nas horas vagas, quando voam em seus trajes escuros pela noite? O careca bota peruca na hora da labuta? A mãe me oferece um café. Exausta com o rodopiar das gerações. Já sabemos: vem mais por aí.
  Olho para a noite e penso em todos os morcegos zunindo por São Paulo. Ser adolescente é difícil, mas... que saudade! 


 
 
 
(Prof. Patrícia)